Este artigo eu escrevi há algum tempo atrás. Espero que ajude nas reflexões desta semana em que relembramos o sacrifício de Jesus.
Espiritualismo é a crença em algo além da matéria. Muitas crenças creem na comunicação com os espíritos (espírito santo, caboclos, etc. ), mas não são espíritas.
Podemos concluir que todo espírita é espiritualista (porque crê em algo além da matéria), mas nem todo espiritualista é espírita (porque não segue os ensinamentos trazidos pelos espíritos através de Allan Kardec) .
AFINAL, NÓS SOMOS ESPÍRITAS OU KARDECISTAS?
Nós espíritas não podemos relutar em responder quando somos inquiridos qual é a nossa religião, e jamais dizer: “EU SOU KARDECISTA.” Devemos responder: “EU SOU ESPÍRITA”. Quando respondemos "SOU KARDECISTA" estamos afirmando que o Espiritismo se divide com várias denominações, o que não é verdade. Muitos dizem, por exemplo: “alto espiritismo, espiritismo de mesa branca, linha Kardecista, Espiritismo do Bem, etc.” Mas Espiritismo é um só.
Centro Espírita só os que seguem a Doutrina dos Espíritos. As outras religiões que usam o nome de "Centro Espírita" e divergem dos ensinamentos dos Espíritos que estão nas obras básicas codificadas por Kardec, não são Centros Espíritas, são Casas Espiritualistas. Eis alguns exemplos de casas espiritualistas: "Centro Espírita Tenda Fraterna", "Centro Espírita de Umbanda Cobra Coral", etc. Tais casas deveriam mudar para "Casa Espiritualista Tenda fraterna"; "Casa Espiritualista de Umbanda Cobra Coral". Mas lembrando sempre que, todas devem ser respeitadas, principalmente quando acreditamos na nossa.
Além de tudo isso, quando dizemos "SOU KARDECISTA", estamos dizendo também que seguimos os ensinamentos de Kardec, quando na verdade seguimos os ensinamentos dos espíritos. Kardec apenas organizou os ensinamentos dos espíritos.
O Espiritismo é uma doutrina sem sacerdotes, sem dogmas, sem rituais, não adota em suas reuniões e em suas práticas qualquer tipo de paramentos ou vestes especiais (as vestes brancas devem ser as que nos cobrem o espírito e o nosso perispírito); não utilizamos sal grosso, plantas, amuletos, etc. (porque o nosso coração é nosso escudo, quando nele mora o amor); não adotamos cálice com vinho ou bebidas alcoólica (os espíritas não devem alimentar o vício do álcool nem do fumo, porque precisamos estar lúcidos para apreciar a beleza da vida); não utilizamos incenso, mirra, velas (porque são coisas materiais e nós usamos a prece para nos sustentar o espírito); não temos altares, imagens, andores, procissões, pagamento pelos trabalhos espirituais, talismãs, sacrifício animal, santinhos, administração de indulgências, confecção de horóscopos, exercício da cartomancia, quiromancia, astrologia, numerologia, cromoterapia, pagamento de promessas, despachos, riscos de cruzes e pontos, não temos curas espirituais com cortes, orações milagrosas para resolver problemas sentimentais, financeiros, etc.
Por que no Brasil se confunde Espiritismo com cultos africanistas, com terreiros e coisas assim?
Raul Teixeira responde: Isso se deve ao fato de termos um grande contingente de pessoas que desconhecem o que seja o Espiritismo e que não se interessam, nem desejam saber o que realmente ele é. Muitos espalham informações sobre o Espiritismo de acordo com o que supõem que seja, demonstrando grande dose de leviandade ou de má intenção. Ainda que o Espiritismo e, por sua vez, os espíritas, não tenham nada contra as práticas e crenças africanistas, é importante que cada coisa esteja no seu lugar, facilitando até a busca e o enquadramento das criaturas que estão procurando novas propostas de vida. Somente por meio das leituras sérias e dos estudos metódicos se conseguirá desfazer a confusão que gera tantos mal entendidos entre os espiritualismo.
(Do livro: Ante o vigor do Espiritismo – J. Raul Teixeira)
Artigo publicado na revista eletrônica "O Consolador" -Ano 9 - N° 422 - 12 de Julho de 2015 - Crônicas e Artigos
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Paulo Oliveira - psdo@outlook.com |
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Zaqueu é uma daquelas figuras que, embora aparecendo
em uma única citação no Novo Testamento, marca presença em nossa mente, instiga-nos
a uma reflexão mais profunda quanto à razão, e ao simbolismo de sua inclusão
nos textos do Evangelho.
Ao buscarmos maiores referências sobre sua
pessoa temos, o relato feito no Evangelho de Lucas (19-1:10), no qual Zaqueu, responsável
pela coleta de impostos na cidade de Jericó, era o chefe dos publicanos
(cobradores de impostos) e muito rico. Era também rejeitado pelas pessoas “de
bem”, por causa de sua profissão e modo de vida.
Sendo Jericó uma cidade importante na qual era
produzido e exportado o bálsamo,
substância extraída de árvores da região, muito cobiçado por ter múltiplas
utilidades, servindo desde um excelente unguento para curar feridas até para perfumar
pessoas e locais. Pequenas amostras dessa substância eram consideradas como verdadeiros
tesouros, gerando muitos impostos.[1] Percebe-se,
portanto, a causa da fortuna de Zaqueu, sendo que alguns afirmavam ter ele desviado
dinheiro público para aplicação em sua riqueza pessoal.
Outra informação histórica sobre Zaqueu é a
deixada por Clemente de Alexandria[2], em seu livro Stromata, onde afirma ter sido Zaqueu apelidado de "Matias", pelos apóstolos, e tomado o lugar de Judas Iscariotes após a ascensão de Jesus.
Pois bem, esse era o homem que buscava Jesus
ansiosamente, naquela tarde que ficaria marcada para sempre em sua memória.
Como nos relata o evangelista Lucas, Zaqueu que
era um homem de baixa estatura física, não conseguiria ver Jesus em decorrência
da grande quantidade de pessoas que seguia o Mestre. Assim, para que pudesse
ser visto, ele subiu em um Sicômoro[3] e
ficou esperando pela passagem de Jesus.
Ao aproximar-se da árvore em que estava o velho
publicano, Jesus olhou-lhe diretamente nos olhos e disse: “Zaqueu dá-te pressa em descer, porquanto preciso que me hospedes hoje
em tua casa.” Atônito e jubiloso, Zaqueu apressou-se, desceu da árvore em que
se alojara e conduziu Jesus à sua casa, onde o recebeu com alegria.
Todos sabemos, pelo relato do evangelista, que
tocado pela consciência de si mesmo e inspirado pela presença do Enviado de
Deus, Zaqueu arrependeu-se e transformou-se por completo, dizendo que daria
metade de seus bens aos pobres e repararia todas as suas ações indébitas que
praticara, ao que Jesus, com muita alegria e júbilo, disse:
Hoje, veio a salvação a esta casa, pois também
este é filho de Abraão. Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se
havia perdido.”[4]
Imaginemos que havia ali centenas de homens e
mulheres, que lutavam uns contra os outros por um lugar especial perto de
Jesus. Cada um sentindo-se com mais direito de ficar perto d´Ele e de obter-Lhe
as bênçãos desejadas. No entanto, de repente, o Mestre olha para quem não
esperava nada, para quem se sentia indigno, insignificante, perdido entre os
galhos de uma figueira e o chama pelo nome: "Zaqueu!".
Esta é a maneira
pela qual Jesus age. Para Ele não há multidões, apenas pessoas, independentemente
de cor, classe social, designação religiosa etc. Ele chora com sua dor e se
alegra com sua alegria, da mesma maneira como faz com todos os filhos de Deus
que habitam este planeta, física ou espiritualmente.
Ele sabe seu nome,
onde você mora, conhece suas ansiedades, sabe que você pode estar tentando se
aproximar d´Ele, no entanto, considera-se pouco merecedor para receber Seu
olhar e Seu carinho, de irmão mais velho. Saiba, porém, que Ele espera, a
exemplo de Zaqueu, que sejamos decididos e determinados, pois mesmo diante de uma
“multidão de dificuldades” e possuindo, ainda, “baixa estatura moral”, que
caracteriza a grande maioria dos Espíritos ligados a este planeta, Ele nos
chama pelo nosso nome, e nos faz o convite permanente: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos
aliviarei.”[5]
Ao escutar as
palavras de Jesus, dizendo que queria ser hospedado em sua casa, Zaqueu não
titubeou. Desceu rapidamente da árvore e conduziu Jesus para dentro de sua
habitação. Simbolicamente, podemos utilizar esta parte da história de Zaqueu
como uma metáfora para nossa reflexão.
Jesus viu a fé no coração de Zaqueu. Muitos não gostaram
do que viram, pois, para os que o conheciam, era um ladrão. Mas, para o Mestre,
que conhece a todos nós por dentro, ele era apenas um homem arrependido,
decidido a mudar. E, por essa razão, conseguiu o tão desejado encontro.
Vamos imaginar que
Jesus aparecesse hoje, exatamente agora, e nos dissesse: “Quero me hospedar em
sua casa.”, o que faríamos?
Certamente, diante
de fato tão impactante, talvez, ficássemos sem ação. A questão, no entanto, é
que Jesus nos pede isso a cada minuto. Ele está pedindo para que o hospedemos
em nossos corações, transformando-nos, cada um de nós, em sua “hospedaria”. O
Mestre quer habitar em cada um de nós, através de seus ensinamentos que Ele nos
solicita a prática diária.
Estamos realmente
querendo hospedar Jesus? Queremos ser os novos "Zaqueus" da atualidade? Será que
realmente estamos preparados para abrir mão da “metade” de nossas preocupações
com a posse material, para dar espaço para a vivência com Jesus?
É no buscar a
própria transformação, pela vivência diária do Evangelho que nos aproximamos do
Mestre, que, certamente, nos dirá: “Desce da árvore das ilusões, e busca o
Reino de Deus que está em teu coração, e lá Eu habitarei”.
Para encerrar estas
reflexões, gostaríamos de lembrar um dos contos trazidos do mundo espiritual,
por Irmão X (Humberto de Campos), através da mediunidade bendita de Chico
Xavier, em que relata a situação de um homem que buscava a condição de
discípulo, e que em diversos encontros com Jesus, sempre recebia uma frase de
estímulo e elevação, provenientes do coração amoroso do Mestre, que, em
seguida, partia deixando-o com os próprios pensamentos e deliberações. Porém, ao final desse maravilhoso conto,
quando Jesus retorna encontrando o discípulo totalmente renovado, demonstrando
alegria, paz, paciência, amor, perdão, e tantos outros sentimentos puros
adornados pela mais simples e genuína humildade, diz-nos Humberto de Campos,
que “o Senhor, encontrando-o em semelhante estado, estreitou-o nos braço, de
coração a coração, proclamando:
- Bem-aventurado o servo fiel que busca
a divina vontade de nosso Pai! E, desde então, passou a habitar com o discípulo
para sempre.”[6]
[1]Maria pegou uma
libra de bálsamo de nardo puro, um óleo perfumado muito caro, ungiu os pés de
Jesus e os enxugou com seus cabelos. E a casa encheu-se com a fragrância
daquele bálsamo. Mas um de seus discípulos, Judas Iscariotes, filho de
Simão, que mais tarde iria traí-lo, objetou: “Por que este bálsamo
perfumado não foi vendido por trezentos denários e dado aos pobres?”(João 12, 3-5)
[2] Clemente de
Alexandria ou Tito Flávio Clemente (Atenas (?), 150 - Palestina, 215 d.C) foi
um escritor, teólogo, apologista e mitógrafo cristão.
[3] Figueira Brava
[4] Lucas 19:9-10
[5] Mateus 11:28
[6] X, Irmão – Luz Acima – cap. 3 – Pequena história do
discípulo[ psicografia de Francisco Cândido Xavier ]– Ed. FEB – 11ª. edição.
Como é bela, Jesus, a tua palavra! Como é encantadora e persuasiva, deliciosa e convincente!
Tua palavra, Senhor, consolida a razão e sensibiliza o coração: fala à mente e fala ao sentimento. Ela diz tudo, e tudo esclarece. Não há mistério que não revele, nem problema que não solucione. Não há refolhos, nem escaninhos ocultos nos meandros da alma, que ela não penetre. Não há labirintos e dédalos misteriosos da consciência humana que ela não percorra deixando após uma esteira luminosa!
Tua palavra, Senhor, é a maior das maravilhas; tem encantos e magia que se não descrevem na linguagem dos homens. E' bálsamo que mitiga as dores, é luz que aclara o entendimento, é força que reanima, é vida que rejuvenesce. E' também poesia que encanta, música que arrebata, verdade que empolga, fé que redime!
Tua palavra, Jesus, modifica, corrige, transforma e converte. Atrai como o imã, aquece como o Sol, refrigera como o orvalho, inebria como os perfumes, purifica como o fogo, diviniza como o amor.
À mágica influência de tua palavra, ó Cristo, converte-se a fraqueza de Simão, na coragem heroica de Pedro; a sordidez do publicano, na generosidade de Zaqueu; a volúpia de Madalena, no sublime e incomparável idealismo da arrependida; o fanatismo feroz de Saulo, no liberalismo e abnegação de Paulo! Ao encantamento da tua palavra, Jesus, serenam-se as tempestades, os coxos e os paralíticos se locomovem, os cegos veem, os surdos ouvem, os leprosos ficam limpos, os mortos ressuscitam e aos pobres se faz justiça!
E como não ser assim, Senhor, uma vez que tua palavra é o mesmo ouvir neste mundo?
(Retirado do livro "Em torno do Mestre" - 2a. parte - Estilhas e Limalhas - Editora FEB)
A parábola do Semeador convida o homem a
ser incondicionalmente bom e semear Verdade e Bem sem nenhuma segunda intenção
de obter resultados objetivos. Basta-lhe a consciência do dever cumprido. Por
esta razão, a maioria dos cristãos tem grandes dificuldades em colocar em
prática os benditos ensinamentos de Jesus, porque se acostumaram a observar
apenas as palavras, e algumas vezes literalmente, o que lhes dificulta uma
compreensão mais profunda do verdadeiro significado que está embutido em cada
uma delas.
Essa não apreensão estende-se há séculos
por interesses outros que não o de levar, a quem têm essa tarefa, as verdades
como Jesus as trouxe. Deturpações de todos os tipos acabaram por calcar em
almas puras as interpretações esdrúxulas que lemos e ouvimos até hoje. Revestida
de tantos mistérios, de dogmas, de retórica que, embora a Palavra permaneça,
fica enclausurada na forma, sem que se possa ver o fundo, a essência. Não
dissipam as trevas e nem abrandam os corações; não anunciam a Palavra, mas
fazem dela um instrumento para receberem ouro ou glória. Somente com uma
análise mais rigorosa e verdadeiramente interessada essas distorções podem ser
esclarecidas e o verdadeiro ensinamento do Mestre vir à tona.
Nosso olhar, hoje, sobre a Parábola do
Semeador passa pela evolução do homem como ser ainda adormecido sobre as coisas
espirituais até seu despertar como Ser Total, como consciência cósmica. Da
beira do caminho à terra fértil, esses elementos ilustrativos representam a
forma como a palavra divina chega ao entendimento do homem. Fases do desenvolvimento
espiritual pelo qual passa, caminhos a serem percorridos ou processos a serem
sofridos até atingir a perfeição possível em cada uma dessas etapas.
É importante deixar claro que Jesus sabia
dos resultados frustrantes que teria ao tentar semear em terrenos pouco
apropriados para o plantio e sem nenhuma preparação para tal tarefa. É sabido,
também, que nenhum lavrador deita sua semente em solo não preparado. É perda de
tempo, de dinheiro e de sementes. Então, fica a pergunta: por que Jesus insistiu
em fazer isso? O que pretendeu Ele? Trazendo sementes benditas a serem
semeadas, sabia que era fundamental plantar a Verdade e o Bem,
independentemente dos resultados.
Afirma Huberto Rohden, no livro Sabedoria das Parábolas, Primeira Parte, in Parábola do Semeador, que não nos
cabe condenar a terra onde foram lançadas porque o ensino não trata do terreno
material, e sim do terreno da alma humana, o campo do Espírito, esse, sim,
imprevisível, onde o egoísmo ainda prevalece. Sob esse aspecto, a liberdade da
criatura coloca limites à jurisdição divina. As leis divinas, não podemos
ignorar, respeitam a liberdade do homem, sejam eles bons ou maus, mas o destino
final poderá ser diametralmente oposto a essa liberdade de escolha. Um exemplo
claro dessa destinação está na parábola do joio e do trigo, na qual o joio
cresce livre para no final ser extinto. A semeadura é livre, mas a colheita é
compulsória. É a lei e assim deve ser cumprida.
No livro Parábolas e Ensinos de Jesus, Cairbar Schutel refere-se à parábola
do Semeador como a parábola das parábolas, porque sintetiza os caracteres
dominantes em todas as almas e, ao mesmo tempo, ensina a distingui-las pela boa
ou má vontade de quem as recebe. Dessa forma, temos as almas “beiras de
caminho”, ou seja, onde passam todas as ideias grandiosas, como pessoas nas
estradas, sem gravarem nenhuma delas. São as pedras impenetráveis às novas
ideias, são os espinhos que sufocam as verdades, como as plantas que não
permitem o crescimento do que quer que seja ao seu redor. São homens e terras
improdutivas. Mas, também temos ao lado dessas almas, aquelas de boa vontade
que recebem as palavras de Deus e as colocam em prática. Terra fértil que
acolhe a semente bendita da qual resulta boa produção.
No momento evolutivo que vivemos, temos
essas características em nós mesmos. Qualidades que já podem produzir bons
frutos, mas também dificuldades que não permitem a germinação da boa semente.
Como todo esse processo é longo, exige de cada um de nós o exercício da
paciência, da perseverança e da coragem para lutar contra as próprias
dificuldades, em acertos e erros contínuos, até que aprendamos a escolher
somente o bem.
Entendemos que a semente é a palavra de
Deus e seu aproveitamento não é uniforme entre os homens porque uns são mais
atentos às coisas do Céu e outros mais apegados às coisas da Terra, ao
transitório, ao fugaz. Portanto, a terra que recebe a semente representa o lado
intelectual e moral de cada um: seja beira de caminho, pedregal, espinhal ou
boa terra. Por exemplo, o amor que se transforma em outro sentimento ou perde
seu encanto e poesia, ou simplesmente desaparece, é por negligência exclusiva
do seu cultivador e não de Deus. Era pouco e, após a transformação, ficou sem
nada. Se fosse verdadeiro, teria sido multiplicado.
Assim, é de fundamental importância aprendermos a semear na própria gleba e depois ajudar o próximo. A necessidade de sair de si mesmo e ir ao encontro dos interesses gerais determina o quanto já apreendemos das lições transmitidas, mas para não falirmos mais uma vez, exige-se firmeza na nossa fé.
Leda Maria Flaborea
Escritora, palestrante e divulgadora espírita
Bibliografia
(*) XAVIER, Francisco Candido. Vinha de Luz – 14ª edição – FEB – Brasília/DF – lição 89 – 1996.
MATEUS,
13:3 e seguintes.
MATEUS,
25: 14-30.
MARCOS,
4: 23-24.
KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo
– Cap. VIII; Cap. XVII, itens 5 e 6; Cap. 18, itens 13 a 15.
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Jesus e as crianças! |
De que maneira podemos entender esse convite de Jesus, se o progresso é uma lei natural e se o nosso destino é evoluir? Como poderemos conciliar o ensinamento evangélico com a realidade da lei do progresso, que podemos constatar em toda a criação de Deus?
Basta para isso observarmos a evolução que se processa em todos os reinos da Natureza. É suficiente que prestemos atenção à própria história da Humanidade e o quanto temos evoluído, desde o homem das cavernas que pouco diferia de um animal dito irracional, até o homem da civilização científica e tecnológica. Entretanto, se no campo intelectual o homem conquistou tão grande evolução, no campo moral não ocorreu o mesmo. Eis aqui a razão do sofrimento humano: somos todos vitimados pelo nosso próprio comportamento, distanciados que estamos das leis de Deus.
No Evangelho de Mateus, capítulo 18, versículo 1 a 5, no qual encontramos a passagem acima citada, Jesus nos alerta para a necessidade de despertamos em nós as virtudes da humildade e da simplicidade. Muitos justificam suas atitudes prepotentes e arrogantes, dizendo não se humilharem e nem se rebaixarem diante de ninguém porque só os que sabem se impor vencem no mundo. Pobres companheiros que, envoltos no véu do orgulho, ignoram que a humildade a qual Jesus se referia e para a qual nos chama à prática nada tem a ver com servilismo! Na excelência de Sua pedagogia, quando o Mestre nos ensina simplesmente que “todo aquele que se eleva será rebaixado”, reporta-se ao sentimento de orgulho, porque toda elevação pessoal que tem por base o orgulho é ilusória. Assim, todo aquele que utiliza o mal como alavanca de elevação será rebaixado, pois só o bem que cultivamos em nós é indestrutível e nos oferece base sólida para todas as realizações.
Humildade é sentimento contrário ao orgulho. É o sentimento que tem a possibilidade de fazer o homem entender sua real posição no mundo, posição essa de eterno aprendiz frente à Sabedoria de Deus, nosso Pai Criador. É o sentimento capaz de levar o homem a compreender que, mesmo conhecendo muito, não deve humilhar quem pouco sabe; de perceber que, mesmo conhecedor de muitas coisas, outros existem que sabem mais, a criatura humilde tem a capacidade de ensinar sem demonstrar sabedoria e de auxiliar sem que o outro se sinta humilhado.
A vida em sociedade estimula a competição, mas longe de ser uma competição saudável, tem levado as criaturas a perderem o bom senso, a razão, e a se comportarem como se vivessem não entre companheiros, mas entre adversários. Nas situações comuns da vida, julgam ter “vencido”, na maioria das vezes, os que fazem uso da esperteza – no sentido pejorativo do termo –, esquecidos de que todas as posições são transitórias e que, mais cedo ou mais tarde, acabarão rebaixados de suas posições por não possuírem a base sólida do amor. São como construções nas areias da ilusão material que o tempo desfaz, mas que ficarão gravadas na sua consciência de Espírito imortal, reclamando por reajuste. Enquanto o orgulho for uma alavanca para nos elevar, seremos rebaixados por deixa-lo nos conduzir a uma suposta elevação sobre o nosso próximo. A nossa vitória só será real quando conquistarmos a elevação sobre nós mesmos, na consciência daquele que diz: hoje, eu cresci em conhecimento; hoje, eu fui melhor do que fui ontem; hoje, eu sou mais paciente, tenho mais coragem moral, sou mais prudente, sou mais calmo; hoje, eu cresci nos meus valores afetivos, nas minhas qualidades positivas...
A elevação que tem por base o amor – quando lutamos para vencer as próprias limitações, superando o egoísmo, a ambição descabida, o desejo de superioridade irresponsável – é elevação legítima, da qual jamais seremos rebaixados, porque toda conquista espiritual é tesouro inalienável do céu. Todos os ensinamentos de Jesus têm por objetivo a nossa elevação espiritual, visando a nossa felicidade, a nossa liberdade e nos conduzindo a uma vida renovada.
Posto isto, podemos destacar três momentos da vida comum de Jesus, no convívio com Seus discípulos, que encontramos em O Evangelho segundo o Espiritismo, Capítulo VII, itens 3 a 6, quando Ele aproveita para nos ensinar a humildade. No primeiro momento, Seus discípulos Lhe perguntam: “Quem é o maior no reino dos céus?” E Jesus, chamando entre eles um menino, diz que se não se tornassem como aquele menino, não poderiam entrar no reino dos céus. A ponta a criança como símbolo da inocência e da pureza. O reino dos céus está dentro de nós. É um estado de espírito em que a criatura que vivem harmonia com as leis de Deus sente uma alegria íntima, uma felicidade que a nossa linguagem é incapaz de traduzir. Assim, liberta-se dos sentimentos inferiores, reflete a pureza de coração.
No segundo, a mãe de dois dos Seus apóstolos, Tiago e João, pede a Jesus que seus filhos se assentem um à sua direita, outro à Sua esquerda no Reino, ou seja, ela pediu a Jesus que desse poder a seus filhos. E Jesus responde: “Não sabeis o que pedis. Podei vós beber o cálice que hei de beber?” Jesus, por compaixão e amor à Humanidade, havia assumido entre nós uma missão de grande sacrifício que o levaria ao martírio da crucificação. E aquela mãe amorosa não sabia o que estava pedindo para seus filhos.
Desta passagem do Evangelho, podemos extrair ainda uma outra lição: quantas vezes almejamos situações de superioridade, julgando-as como um grande bem e nos aborrecemos por não conquistarmos aquilo que desejávamos? Mas, será que estávamos preparados para assumir uma posição superior? Quantas vezes, em prece, pedimos a Deus a realização de algo que queremos muito e, como não vemos nosso desejo se realizar, imaginamos que sequer fomos escutados quando, na verdade, o não atendimento a nossa solicitação é justamente o socorro da Providência Divina em nosso benefício, evitando consequências que não poderíamos suportar. Quando os discípulos pedem esclarecimentos ao Mestre Jesus acerca de suas dúvidas, Ele explica que aquele que vem para servir, que é humilde e simples de coração, que reconhece a Sabedoria do Pai Criador, que não se vangloria e nem aceita homenagens na Terra, mas trabalha no silêncio de sua consciência em benefício do próximo, que guarda a recompensa do céu e não a dos homens, este será grande no céu, porque se fez pequeno na Terra.
No terceiro momento, Jesus, na casa de um fariseu, observando como se comportavam os convidados, ensinou que quando fôssemos convidados para uma festa, não nos colocássemos em posição de destaque tomando acento entre os primeiros lugares, para que, ao chegar outro convidado mais considerado, o anfitrião não necessitasse nos pedir para ceder o nosso lugar a ele, tendo de nos assentarmos nos últimos lugares. Mas, ao contrário, se buscássemos os últimos lugares, para que fosse motivo de glória o anfitrião nos colocar em posição mais elevada.
Eis a valorização da humildade, pois só aquele que compreende a sua condição de Espírito imortal pode ser humilde, e só pode ser humilda aquele que compreende que a posição de superioridade é acréscimo de responsabilidade espiritual para produzir o Bem, para amparar, para servir. Emmanuel, estimado benfeitor espiritual, nos lembra no livro Fonte Viva, lição 104, trazido a nós pela bendita mediunidade de Francisco Cândido Xavier, a propósito desse tema, o seguinte: “Auxiliar a todos para que todos se beneficiem e se elevem, tanto quanto nós desejamos melhoria e prosperidade para nós mesmos, constitui para nós felicidade real e indiscutível. Ao leste e ao oeste, ao norte e ao sul da nossa individualidade, movimentam-se milhares de criaturas, em posição inferior a nossa. Estendamos os braços, alonguemos o coração e irradiemos entendimento, fraternidade e simpatia, ajudando-as sem condições. Quando o cristão pronuncia as sagradas palavras “Pai Nosso” está reconhecendo não somente a Paternidade de Deus, mas aceitando também por sua família a Humanidade inteira”.
“Bem-aventurados os pobres de Espírito, porque deles é o reino dos céus” quer dizer que os humildes já desfrutam da bem-aventurança, porque Jesus não diz “deles será o reino dos céus”, mas diz: “porque deles é o reino dos céus”. A partir do momento em que modificarmos nossa postura de orgulho diante da vida, já poderemos nos sentir, imediatamente, muito mais felizes, porque bem-aventurados. Por essa razão, Jesus ensinava incansavelmente o princípio da humildade como condição essencial à felicidade prometida.
Bibliografia:
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo – 37ª edição – Editora LAKE – São Paulo/SP – 1989 - Capítulo VII.
FRANCO, Divaldo P. Jesus e o Evangelho à luz da Psicologia Profunda. Ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis – 19ª edição – LEAL Editora – Salvador/BA – p. 57 a 62.
XAVIER, F.C. e WALDO, Vieira. O Espírito da Verdade, Espíritos diversos – 10ª edição – Editora FEB – Rio de Janeiro/RJ – 1977 – lições 36 e 64.
XAVIER, F. C. – Fonte Viva. Ditado pelo Espírito Emmanuel – 16ª edição – Editora FEB – Rio de Janeiro/RJ – 1988 – lição 104.
Numa manhã de sábado de dezembro, num telhado próximo, havia dois pombos que estavam pousados, quietamente, recebendo toda aquela chuva que caía torrencialmente. Levantavam levemente as asas, fato que logo concluí como sendo um movimento de proteção contra o aguaceiro. Porém, percebi que estavam, em verdade, aproveitando a chuva e se refrescando, pois era o primeiro dia de verão e a manhã já ia particularmente quente. A velha condição automatizada de tudo julgar fez-me, num primeiro impulso, na busca de um significado para aquela atitude, atribuir àquela cena o que eu certamente faria, e que de fato não era justo e nem verdadeiro para a realidade daquelas simples aves. Imediatamente recordei-me do “Não julgueis”, ensinamento sublime dado por Jesus, para que sejamos mais comedidos em nossas ideias e comentários sobre quaisquer situações com as quais nos defrontemos em nossas vidas, diariamente, das mais complexas às mais simples.
Ao acompanhar a cena, via-se a atuação de um tipo de inteligência instintiva, ainda rudimentar quando comparada com a inteligência humana, “cujo exercício é mais exclusivamente concentrado sobre os meios de satisfazerem suas necessidades físicas e promoverem à sua conservação”[1]. Mesmo diante dessa constatação, a cena descrita sugeria a reflexão sobre como encarar essa atitude natural dos pombos, utilizando-a como elemento de análise comparativa quanto à compreensão humana sobre a Bondade Divina. Aceitar a chuva e aquietar-se diante daquilo sobre o qual nada podiam fazer aqueles pombos despertou a ideia de que estavam dando o seu exemplo de aceitação e resignação à Vontade Divina.
Jesus, que sempre buscou ensinar de forma simples, com base nas coisas da vida comum, utilizou-se da atitude das aves para enfatizar a necessidade de se ter fé e confiança na Justiça Divina: “Olhai as aves do céu: Não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis muito mais do que elas?” (Mateus, 6:26).
Com esse ensinamento, quis o Mestre salientar a necessidade de desenvolvermos a certeza de que Deus está no comando de tudo e, através de Suas leis naturais, promove o desenvolvimento e o equilíbrio do Universo. Nada escapa à Sua ciência e vontade: “até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados” (Mateus, 10:30).
Mas, voltando ao simbolismo utilizado por Jesus, representou Ele na atitude das aves do céu a meta que o ser inteligente deve ter para alcançar a sublimação de si mesmo. A atitude confiante e resignada é um sinal de crescimento espiritual, que transparece no comportamento.
Muita gente, ao ler as palavras do Evangelho, pressupõe humilhação e menosprezo pela condição humana, nas quais, em verdade, existe o estímulo à superação e ao crescimento. Acredita-se submissão e obediência à Vontade Divina tratar-se de um ato de covardia e acomodação.
O Espírito Lázaro afirma que a obediência e a resignação são “duas virtudes companheiras da doçura, muito ativas, se bem que os homens erradamente as confundam com a negação do sentimento e da vontade. A obediência é o consentimento da razão; a resignação é o consentimento do coração, forças ativas ambas, porquanto carregam o fardo das provações que a revolta insensata deixa cair”. [2]
Ficamos aqui imaginando o que diríamos dos nossos amiguinhos pombos, se, ao contrário do observado, estivessem no telhado molhados pela chuva, reclamando, revoltando-se e acusando Deus por tê-los esquecido e abandonado. Não pareceria estranho? Será que poderíamos conceber essa atitude partindo de criaturas doces e singelas da natureza? Parece-nos que a resposta seja óbvia: a maioria de nós estaria atônita ao presenciar tal fato.
E quanto aos seres humanos, a quem Jesus comparou de forma superlativa em relação à vida animal, será aceitável que tenham atitudes de revolta e desespero diante das “chuvas” que invariavelmente cobrem seus corações? Será que temos direitos especiais por sermos filhos de Deus, devendo, portanto, serem todas as nossas vontades e desejos totalmente atendidos?
O que acontece a uma criança que é sempre atendida em seus reclamos e exigências? Torna-se totalmente egoísta, em nada cedendo por imaginar-se no centro das atenções. Deus quer nosso bem e nos dá a oportunidade de crescermos com equilíbrio. Por essa razão, não nos dá tudo o que queremos e, sim, aquilo de que precisamos; assim como dá, também, a todos os seres da criação. Trata-nos com justiça inquestionável, e mesmo diante de situações em que nos falte o sentido para entender o porquê do mal que nos surge à frente, a confiança nessa Bondade e Justiça Divinas deve senhorear nossos passos e reações, para que não venhamos a perder a oportunidade da exemplificação e da reparação devida, pela rebeldia expressa através de lamentações ou injúrias.
A Doutrina dos Espíritos mostra-nos que as nossas aflições têm causas anteriores, de vidas passadas ou desta vida atual, criadas por nossa incúria e irresponsabilidade em relação às leis divinas, gerando nossos débitos que necessitam ser reajustados, através da reencarnação. Dá-nos o Pai Criador a oportunidade de recomeçar a experiência em novo corpo, o que nos permite rever caminhos, aprender e crescer para Ele, que nos espera de braços abertos.
Jesus, o exemplo maior de resignação e submissão à vontade de Deus, está nos amparando com Suas palavras vivas, que pulsam energia nova para nossos Espíritos, e que farão de nós seres mais fortalecidos e confiantes, abrindo-nos o caminho para a redenção. O Seu exemplo ensina-nos que a submissão à vontade do Pai é, no fundo, uma forma de libertação das tendências inferiores que caracterizam o espírito humano. Orgulho, vaidade, egoísmo e tantos outros, somente desaparecerão se o indivíduo começar em si a reforma para o bem, na busca da verdade, mas não aquela verdade sectária e formalista, mas, sim, a verdade que liberta: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João, 8:32).
Emmanuel, estimado benfeitor espiritual, de forma clara e precisa, fornece os comentários que nos orientam para essa verdade que liberta. Diz ele: “Só existe verdadeira liberdade na submissão ao dever fielmente cumprido”.[3] Mais à frente complementa: “E perceber o sentido da vida é crescer em serviço e burilamento constantes”.
Que Jesus abençoe e fortaleça nossa disposição para o entendimento e a resignação daquilo que não podemos modificar ainda.
[1]. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
135. ed. Araras: IDE, 2001, questão 593 (comentários).
[2]. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o
Espiritismo, 25. ed. de bolso, Federação Espírita Brasileira, RIO DE
JANEIRO/RJ– 2010, cap. IX – item 8 – Obediência e Resignação.
“Disse então Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra.”
(Lucas, 1:38)
Convidamos
o leitor amigo a fazer uma viagem. Vamos retornar no tempo. Estamos indo em
direção a Nazaré, um pequeno povoado na região da Galileia, onde, em uma casa
humilde, está uma jovem de nome Maria, ocupada com seus afazeres
domésticos, ajudando sua mãe Anna.
Aproxima-se
o crepúsculo com suas aragens típicas daquele período do ano, e tocado por
especial brilho, naquela tarde longínqua e especial, transmite paz ao coração
daquela jovem. Absorta ela canta, em seu espírito, louvores ao Criador da vida,
em agradecimento por ter uma família que a ama ternamente, bem como pela
felicidade de existir. Seu coração transborda raios de luz safirina,
transmutando o ambiente com suas vibrações harmoniosas.
Parecia
que em seu íntimo pressentia que não estava só. Percebia em sua alma sensível
que aquele momento era especial e único, tornando-se mais alegre e esfuziante. Não
havia razão aparente para aqueles sentimentos que partiam de seu coração
iluminado e doce.
Continuava
sua oração silenciosa, e quando suas preces ao Senhor da vida atingiram
patamares de pureza incomparável, com tal profundidade de sentimento,
tocando-lhe todas as fibras da alma, fazendo-as vibrar em uníssono como o
Universo, ela sente que se aproxima uma luz, embora pequena, extremamente alva
e brilhante. Para por um instante e põe-se a observar o que se passava e a
interrogar sobre o que seria aquilo. No entanto, segura da sua conexão com o
Criador, presta mais atenção ao fenômeno que ocorria diante de seus olhos.
Repentinamente,
aquela pequenina luz se agiganta e inunda aquele ambiente simples, que se
transformara, num átimo, em um castelo luminescente de tom esmeraldino com
pontos de luzes douradas que circulavam em todas as direções, retornando àquela
figura que se postava diante dela naquele instante.
O
coração de Maria tornou-se um tanto apreensivo, e obedecendo automaticamente ao
impulso de buscar sua mãe, percebeu que não conseguia movimentar-se. Estava como que paralisada, envolvida
pelos eflúvios daquele que a visitava. Sua voz começava a perder-se na
garganta, e a emoção tomando-lhe integralmente, exteriorizava-se naturalmente em
pequenas lágrimas simples e puras, a cair de seus olhos amendoados e
brilhantes, como se fossem pequenos diamantes a rolar-lhe pela face.
Nesse
misto de alegria, júbilo e inquietação, por não saber exatamente o que se
passava naquele ambiente, prostra-se de olhos voltados para o chão, ela pensa:
-
Meu Deus, auxilia-me neste momento!
Nesse
exato instante, contudo, ela escuta a voz doce e suave, do divino emissário a dizer-lhe:
“Nada
temas, Maria! Encontraste graça junto de Deus. Alegra-te, cheia de graça, o
Senhor está contigo!”[1]
Aquela
voz imensa e, no entanto singela, tocava-lhe não só os ouvidos, mas toda a sua
alma, envolvendo-a em vibrações do mais puro amor, e diante de tal sentimento
que lhe invadia inteiramente, ousou dirigir seu olhar para aquela figura de
luz, que a fitava com inexcedível carinho e respeito.
Sorriso
largo, mostrava-se, o enviado divino, aos olhos de Maria, como uma estrela que
caíra do céu e que assumira a forma humana, sem perder, porém, seu maravilhoso
brilho.
Maria,
um tanto aturdida com o acontecimento, não conseguia atinar com o porquê de tal
saudação. Do que falava o emissário celestial? Seus pensamentos procuravam
incessantemente o significado de tais palavras, quando seu visitante iluminado
voltou a falar:
“-
Eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho, e o chamarás com o nome
de Jesus. Ele será grande, será chamado filho do altíssimo, e o Senhor Deus lhe
dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará na casa de Jacó para sempre, e o seu
reinado não terá fim.”[2]
Diante
de tais palavras, seu coraçãozinho acelerou-se e com o semblante a suplicar
esclarecimentos maiores, necessários ao seu entendimento humano, começou a
questionar-se mesmo sem emitir uma só palavra, pois aquele a quem via diante de
si, como um sol a espraiar seus raios em todas a direções, merecia-lhe respeito
e acatamento, no entanto, as notícias que lhe trazia eram preocupantes. Como
poderia ela conceber um filho se ainda encontrava-se em período
pré-matrimonial, tendo somente formalizado um compromisso com José, seu noivo.
O
ingente anjo percebendo seus pensamentos e dúvidas esclarece que Deus tem os
seus planos devidamente traçados, e que tudo ocorrerá conforme seus desígnios.
Explica-lhe quão grande é a sua missão e que ela teria por responsabilidade
orientar os passos do Messias, até que pudesse ele próprio conduzir toda a
humanidade através das veredas da luz, da verdade e do amor. Reafirma que Deus
está com ela, e que ela não duvidasse e seguisse em frente confiante,
demonstrando toda a fé naquele que é o nosso Criador.
Nessa
troca de energias etéreas, Maria acalma-se mesmo diante de uma das mais difíceis
e importantes missões que já se teve notícia: ser a mãe do Mestre de todos nós!
Enternecida
e reconhecida por ter sido escolhida como instrumento da vontade de Deus,
Maria, com toda a sua alma voltada para o Altíssimo, dirige ao querido amigo
espiritual, que se incumbira da missão de trazer o anúncio da vinda do Messias,
a demonstração de sua total submissão e aceitação da missão que lhe estava
sendo confiada, e com toda a coragem e pureza do seu coração, afirma:
“Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!”
Essa
cena tantas vezes descrita, de formas tão diversas, é uma das mais belas dos
registros evangélicos, pois nos traz o momento exato em que se anuncia a vinda
do Messias, que nos traria as lições de libertação pela prática do amor.
Que
possamos sempre ter viva essa mensagem em nossos corações, e que ela possa nos
inspirar a também perceber que Jesus é anunciado a todo momento, em todas as
situações, ensinando-nos sempre que somos filhos do Deus
altíssimo que nos quer felizes por toda a eternidade, e que, juntamente com
Maria de Nazaré, possamos dizer do fundo de nossos corações, em todos os
momentos de nossa vida:
“Eis aqui a serva do Senhor! Cumpra-se em mim segundo a tua palavra.”
“Glória
a Deus nas Alturas, Paz na Terra, boa vontade para com os homens.” (Lucas
2:14)
Mais um ano se passou e estamos novamente diante do Natal, festividade que comemora o nascimento de Jesus Cristo, em nosso planeta Terra.
Como acontece normalmente, neste período que antecede as festas natalinas, há grandes movimentações quanto aos preparativos, que incluem a compra de presentes, de ornamentos, de comidas e bebidas, conforme as condições financeiras de cada um.
Nas famílias, nas organizações, nas escolas e em tantos outros lugares, inicia-se uma aproximação mais festiva, com brincadeiras como a do "amigo oculto", bem como a organização de almoços, jantares e outros, com o fito de marcar o final do ano.
Desejos de felicidade e prosperidade acontecem em grande quantidade nos locais que frequentamos, muito embora grande parte desses “Boas-Festas” e “Feliz Natal” ocorram mais por determinações da educação e dos costumes adquiridos, sendo expressos mais mecânica do que intencionalmente.
As crianças, estimuladas pelos adultos, correm a escrever suas cartinhas pedindo os brinquedos de sua preferência para o “bom velhinho”, que é suposto a entregar todos os presentes na noite de Natal, lenda que é reforçada junto aos pequeninos, ainda com a imaginação infantil aguçada, desviando sua atenção daquele que realmente é o centro de todas essas festividades: Jesus!
No entanto, devemos nos questionar se será esse o verdadeiro espírito do Natal. Qual, de fato, o significado do Natal para aquele que assimilou a luz do Evangelho, pelas portas da doutrina consoladora – o Espiritismo – codificada por Allan Kardec.
Em primeiro lugar, Natal é a celebração do nascimento de Jesus Cristo, o enviado de Deus para disseminar, junto à humanidade, o código de luz e de amor: o Evangelho. Mas você, caro leitor, poderá pensar neste momento que esse é o entendimento geral. Todos comemoram o nascimento de Jesus no Natal. Isso é um fato! E, diante desse fato, perguntamos: Será mesmo?!
Relembrando a vida do Mestre e suas atitudes, quando aqui esteve entre nós, pôde-se perceber que esta foi simples e humilde, tendo como maior exemplo dessa humildade as próprias condições de seu nascimento, ocorrido numa estrebaria, onde teve seu corpinho envolto em panos simples e colocado numa manjedoura, que nada mais era do que uma estrutura feita de madeira, em que se depositava o alimento dado aos animais, conhecida também pelo nome de cocho. Sim, um cocho! Diferente da visão da manjedoura que estamos acostumados a ver, transmitida pelo imaginário de artistas ao longo desses dois milênios, Jesus ficou deitado num monte de feno que foi colocado nesse local onde os animais se alimentavam.
A simbologia da manjedoura transcende o nosso entendimento ainda diminuto, em relação à grandiosidade de Jesus expressa na mais pura humildade. Era ele ali colocado como que a dizer: - Eu trago o verdadeiro alimento para todos aqueles que se encontram infelizes, cansados e abatidos. Eu trago a esperança e a fé que aliviará todo o peso do fardo pesado sobre seus ombros.
Cresceu humilde, tornando-se aprendiz de carpintaria, ofício exercido por seu pai José, com o qual supria as necessidades de sustento e subsistência de sua família. Conviveu com a gente simples do caminho e, quando iniciava sua missão de levar à humanidade sua mensagem de amor e perdão, não prescindiu de convocar pescadores humildes e ignorantes para seus discípulos, bem como aqueles que viviam em padrões não aceitos à época, sendo considerados como a escória, como o publicano Levi que mais tarde foi chamado de Mateus. Foi nesses corações simples que Jesus iniciou seu trabalho de construção do Reino de Deus na Terra, distante do luxo, da pompa dos amplos salões da nobreza do poder da época.
Não havia a beleza nem o glamour das árvores de natal bem decoradas, muito menos das comidas e bebidas que tradicionalmente se encontram nas ceias natalinas.
Todos esses símbolos, adereços, presentes etc. surgiram ao longo dos séculos, nos quais os homens entenderam homenagear aquele que trazia a mensagem de Paz e Amor diretamente de Deus para todos nós.
Com o passar do tempo, diante das necessidades artificialmente criadas pelas novas demandas da civilização moderna, fomos nos concentrando mais nesses aspectos exteriores do que na real celebração do nascimento do Mestre, o que nos desviou do real sentido do Natal.
Natal, na visão espírita, não deve ser de exclusão, mas sim de inclusão. Não estamos impedidos de estender ao nosso grupo familiar e de amigos as benesses do conforto que lhes possamos ofertar. Devemos viver no mundo como aqueles que atendem as condições de vida do mundo, porém que isso não nos impeça de vivenciar o Natal como um momento de iluminação do Espírito imortal e, também, de elevação do sentimento de gratidão ao Mestre Divino, pelo seu amor que empenhou em nosso favor, vindo pessoalmente trazer-nos a “Boa-Nova”.
Que tenhamos a consciência de que a festa de Natal é a celebração do aniversário de Jesus, que, como em toda festa de aniversário, deve ser Ele o alvo principal de todas as atenções.
No Natal de Jesus, o presente que ele mais espera de nós todos é que apliquemos os Seus ensinos, em nossas ações no dia a dia. Que possamos abraçar a todos e, perdoando sinceramente aqueles que nos ofenderam, elevemos uma prece de reconhecimento, gratidão e júbilo por termos a iluminação de nosso entendimento, através do registro em nossas almas da palavra esclarecedora do Mestre dos mestres.
Emmanuel, o querido benfeitor espiritual que orientou a mediunidade bendita de Chico Xavier, deixa-nos relevante convite em mensagem constante do livro Fonte Viva, em sua lição 180, com a qual desejamos encerrar esta pequena reflexão sobre o real sentido do Natal:
“Irmão, que ouves no Natal os ecos suaves do cântico milagroso dos anjos, recorda que o Mestre veio até nós para que nos amemos uns aos outros.
Natal! Boa Nova! Boa vontade!
Estendamos a simpatia para com todos e comecemos a viver realmente com Jesus, sob os esplendores de um novo dia”.
Muita paz a todos e os meus mais sinceros votos de um Feliz Natal, com Jesus em nossos corações e em nossos lares.
(Artigo publicado na revista eletrônica O CONSOLADOR - N° 445 - 20 de Dezembro de 2015)